Boa noite, Quarta-Feira, 16 de Agosto de 2017
ARTIGO
Orgulho e preconceito: uma leitura equivocada
29/07/2016 - 16h53

Não, não é um texto sobre o belo filme “Orgulho e Preconceito” baseado no romance “Pride and Prejudice” da escritora britânica Jane Austen dirigido por Joe Wright em 2005. É apenas uma chamada para um problema muito atual do passional hábito da leitura de poesia.
Por que será que se criou um pré-conceito em relação ao soneto, ainda mais quando clássico e respeitando a todos os preceitos que a tradição da forma pede?
Tenho percebido que, cada vez mais, as pessoas “torcem o nariz” quando alguém lhes mostra um soneto. Eu até entendo: fazer um poema na forma soneto não garante que ele seja bom! O problema é que, extrapolando para uma visão mais ampla, sempre que alguém fala ou sugere relação com as formas fixas (o “monstro/besta” materializado na métrica), a reação que se percebe é de absoluta ojeriza!
“Faço poesia, não matemática!” - esta costuma ser a resposta dos preguiçosos e/ou simplesmente incapazes de construir versos com ritmo regular... Ora, quem pretende ser chamado de poeta tem a OBRIGAÇÃO (o grifo é meu) de buscar o conhecimento das técnicas e de ler como aprendiz os clássicos para ter mais ferramentas na hora de construir seus versos.
Ouvi, estarrecido, numa clínica de poesia, a afirmação de um poeta conceituadíssimo, a quem muito respeito: “Ainda tem quem faça sonetos hoje em dia?” E porque não fazê-los? Puro preconceito...
É óbvio que, nos dias atuais, escrever um poema, um soneto, com a métrica e todos os requisitos absolutamente atendidos, mas utilizando uma temática e uma dicção distante dos dias atuais apenas como uma sombra dos clássicos resulta num poema ruim, de leitura que, esta sim, se mostra arrastada e sofrida. O leitor do século XXI pede algo novo, uma linguagem ágil, contemporânea, que não nos force a buscar nos dicionários termos ancestrais para cumprir com o ritual de uma rima. Os temas também pedem que se fuja do lugar comum romântico.
Ciente disso tudo, mas querendo provocar os leitores incautos, fiz um soneto há tempos, mas na hora de publicar na internet resolvi retalhar os versos decassílabos heroicos, dando-lhes uma aparência de verso livre. O resultado foi este:

PEQUENOS SONS DE OUTONO

A folha que,
já seca,
o impulso sente
e estala
e solta
e salta
e voa ao vento,
de um mês de abril
que teima e ainda é quente,
se junta às outras folhas no cimento
em roda de ciranda,
docemente,
e brinca,
pula,
dança,
- é sentimento –
e faz um quase guizo
diferente do grito
de ser livre no momento...

E o galho que,
desnudo,
resistiu,
agora sem a folha desgarrada,
emite ao vento
um longo assobio, pungente,
de uma voz desconsolada,
anunciando o tempo à frente
- o frio –
seu único parceiro,
só,
mais nada...

NENHUM dos leitores nos vários veículos de divulgação da internet aonde postei o poema “descobriu” que o mesmo era, na verdade, um soneto clássico, mas TODOS os que comentaram elogiaram a sonoridade e o ritmo, considerados por alguns impecáveis. Nem suspeitaram do título, uma vez que “soneto” quer dizer “pequeno som”...
Qual seria, no entanto, a reação dos leitores se o mesmo poema estivesse estruturado na forma soneto, como foi idealizado?

SONETO DE OUTONO

A folha que, já seca, o impulso sente
e estala e solta e salta e voa ao vento,
de um mês de abril que teima e ainda é quente,
se junta às outras folhas no cimento

em roda de ciranda, docemente,
e brinca, pula, dança - é sentimento –
e faz um quase guizo diferente
do grito de ser livre no momento...

E o galho que, desnudo, resistiu,
agora sem a folha desgarrada,
emite ao vento um longo assobio,

pungente, de uma voz desconsolada,
anunciando o tempo à frente - o frio –
seu único parceiro, só, mais nada...

Este poema foi feito como um tributo à obra de Guilherme de Almeida, um artífice do verso, seja ele em forma livre ou fixa. O tema “outono” é recorrente em sua poesia e a extrema habilidade em combinar som e sentido fez dele o “Príncipe dos Poetas Brasileiros”. Ele foi um mestre e o estudo de sua obra, absurdamente esquecida pela mídia, pode nos revelar toda a sua grandiosidade e servir de guia e orientação a todos que queiram aprender a versificar.
Tentei fazer algumas citações além da evidente evocação ao tema. As aliterações buscaram também reproduzir os tais “pequenos sons”. A linguagem, no entanto, é coloquial, atual e as imagens são as que, ainda hoje, se podem observar num dia frio de outono ao soprar uma brisa da tarde.
Será que os leitores teriam a mesma isenção ao lê-lo como um soneto? Talvez nunca saibamos...
Só existem, em última análise, dois tipos de poemas: os bons e os ruins! Forma, métrica, temática, isso tudo é relativo e acessório, e não garante, de antemão, a qualidade (se boa ou ruim) do resultado final. No entanto, queridos leitores, deixem as impressões para “após a leitura” assumindo uma postura que mais cabe ao apreciador da poesia: a abertura dos canais sensoriais para que o poema, se bom, se instale confortavelmente e, se ruim, seja rejeitado. Só assim a opinião posteriormente emitida é verdadeira, válida, coerente e honesta.

por Cesar Veneziani

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