Boa noite, Quarta-Feira, 16 de Agosto de 2017
LIXO
A PhD catadora de lixo que revolucionou coleta e inspirou reciclagem no Líbano
Professora aposentada que organizou equipe de mulheres para fazer coleta e reciclagem em seu vilarejo dá lição de iniciativa e organização a autoridades em país que vive crise no setor.
08/06/2017 - 14h45 - Fonte: G1

Uma mulher de 81 anos que organizou uma equipe feminina de coletoras de lixo em sua cidade no Líbano agora vive ouvindo perguntas sobre como fez isso.

O acúmulo de lixo e a falta de aterros sanitários são um sério problema no país. Durante nove meses em 2015 e 2016, pilhas de lixo foram espalhadas pelas ruas da capital, Beirute, e até hoje a solução tem sido jogar parte do lixo no mar.

Zeinab Mokalled provou que, quando o governo falha, iniciativas locais no estilo "faça você mesmo" podem funcionar.

"Havia sujeira por todo canto e as crianças estavam imundas", diz Zeinab Mokalled.

Ela está relembrando os anos 1980 e 1990, quando Israel ocupou parte do sul do país, por 15 anos, e o recolhimento de resíduos foi interrompido em sua cidade, Arabsalim.

Com o passar dos anos, o lixo foi se acumulando e Mokalled foi pedir ajuda ao governador da região.

"Por que você se importa? Não somos Paris", respondeu ele.

"Eu soube naquele dia que eu tinha que fazer algo eu mesma".

Mokalled chamou as mulheres de seu vilarejo para ajudar - em parte porque queria empoderá-las e também porque acreditava que elas fariam um trabalho melhor.

Além disso, organizar a reciclagem doméstica e colocar o lixo para fora eram tarefas que já vinham sendo realizadas por mulheres.

Zeinab precisava, então, de voluntárias para bater de porta em porta e falar sobre a iniciativa - e colocar homens para fazer isso em uma comunidade libanesa muçulmana em meados dos anos 1990 não seria apropriado.

Elas não tinham equipamentos nem infraestrutura. Então por onde começar?

Uma amiga de Mokalled, Khadija Farhat, comprou um pequeno caminhão com dinheiro de seu próprio bolso. Mokalled ofereceu seu próprio jardim como depósito de lixo reciclável.

Não parecia provável que os 10 mil moradores da cidade pagariam para ter seu lixo coletado, então as voluntárias resolveram arcar com esse custo. E 19 anos depois, elas continuam fazendo o mesmo - cada uma dos 46 membros da equipe paga cerca de US$ 40 (R$ 130) por ano.

"A reciclagem caseira era a melhor solução", diz Mokalled, que chamou a organização de "Chamado da Terra".

Elas começaram reciclando vidro, papel e plástico. Recentemente, começaram a coletar lixo eletrônico e contrataram um pesquisador para descobrir a melhor forma de fazer compostagem nas condições secas e quentes do sul do Líbano.

A única ajuda que as catadoras de lixo receberam das autoridades locais, após três anos de trabalho, foram 300 cestas de plástico e um terreno de presente, o que permitiu que Mokalled recuperasse seu jardim.

Ao mesmo tempo, elas começaram a alugar um pequeno caminhão além do de Farhat, e contrataram um motorista homem - apesar de sempre acompanhá-lo para garantir que ele não se aproxime de mulheres sozinho.

Depois de 10 anos, elas ganharam uma doação da embaixada italiana para construir um depósito, que é onde Mokalled agora recebe visitantes - crianças, estudantes e ativistas - que vêm estudar como o Chamado da Terra funciona.

Os problemas relacionados a lixo aumentaram no país desde o fechamento do principal aterro de Beirute em 2015, o que levou à concentração de resíduos na cidade e na área no entorno do Monte Líbano.

As tentativas de encontrar um novo local para despejar o lixo da cidade foram infrutíferas. Nenhum dos grupos étnicos que tradicionalmente disputam o poder no país - cristãos, sunitas ou xiitas - quis receber o aterro. O governo, então, anunciou que exportaria o lixo - mas reverteu a decisão meses depois.

O lixo, no entanto, tinha que ir para algum lugar, e acabou sendo despejado perto do aeroporto. Só que isso atraiu bandos de gaivotas, que viraram um perigo para os aviões. Iniciativas de matar as gaivotas a tiros provocaram ondas de protesto, então foram usadas máquinas para tocar música alta e assustá-las. Uma decisão da Justiça exigiu o fechamento do local, mesmo assim, as gaivotas continuam circulando sobre a área.

Para piorar, um antigo aterro sanitário foi reaberto. Além de trazer novos resíduos, caminhões estão levando lixo velho - em parte, contaminado por químicos - e jogando o entulho no mar Mediterrâneo.

A longo prazo, o governo diz que quer queimar o lixo e gerar eletricidade a partir dele. Mas críticos temem que eles não lidem com a questão direito e que os plásticos e outros materiais capazes de criar fumaça tóxica sejam queimados junto a resíduos orgânicos limpos.

Por isso, talvez não seja tão surpreendente que o simples esquema de reciclagem pela comunidade, bolado por Zeinab Mokalled, atraia tanta atenção.

As mulheres do vilarejo vizinho de Kaffaremen recentemente começaram sua própria iniciativa, que é parecida com a de Mokalled, a única diferença é que é mantida pelo dinheiro dos moradores, não das voluntárias. Outra cidade próxima, Jaarjoua, também decidiu seguir o mesmo modelo.

"Quando olho para elas, é como olhar para nós mesmas há 20 anos", diz Mokalled.

Quando criança, ela dava aulas de literatura árabe para algumas das voluntárias de Kaffaremen. Agora, ela é sua mentora em questões ambientais.

"Vocês vão enfrentar muitos desafios, mas é tudo uma questão de paciência e determinação", diz a elas.

Wafaa, uma das ex-alunas de Mokalled, aperta com firmeza sua mão e diz: "Ela é um exemplo para mim. Ela nunca desistiu".

Além de garantir que Arabsalim esteja limpa, Mokalled ainda arranjou tempo para fazer um doutorado em Estudos Árabes, conquistado quando tinha 70 anos.

Do que ela mais se orgulha?

"Plantar a ideia na cabeça das pessoas de que cuidar do planeta é nossa responsabilidade nesta parte do mundo. Se o fizermos ou não, os políticos não vão se importar. Depende de nós. Se todos fizessem o que fizemos em Arabsalim, o Líbano não teria problemas com lixo".

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