Boa tarde, Domingo, 18 de Fevereiro de 2018
FOI ASSIM...
Jornalistas contam em livro 145 histórias curiosas que passaram pela Justiça do Trabalho de MT
Babá que apresentou atestado médico falso para viajar e foi demitida ao postar fotos nas redes sociais é uma das personagens do livro "Foi assim...".
02/02/2018 - 11h26 - Fonte: G1-MT

português boêmio que foi trabalhar bêbado, o pedreiro que não recebeu pelo serviço na construção da UFMT e a babá que apresentou atestado médico falso para viajar e foi demitida ao postar fotos nas redes sociais, estão entre os inúmeros personagens citados no livro “Foi assim… Vidas, olhares e personagens por trás dos processos trabalhistas em Mato Grosso”, lançado em janeiro.

Da esquerda para a direita, Zequias Nobre, o ilustrador Ric Milk, Fabyola Coutinho, Sinara Alvares e Aline Cubas (Foto: Alessandro Cassemiro/ TRT-MT)

Essas e outras 142 histórias são verídicas e passaram pelo Tribunal Regional do Trabalho da 23ª Região (TRT-MT).

A escolha dos casos a serem contados na obra foi feita pelos próprios autores. Os jornalistas Aline Cubas, Fabyola Coutinho, Sinara Alvares e Zequias Nobre, que atuam como assessores de imprensa do TRT-MT, demoraram três anos folheando os processos e reunindo informações.

Apesar de a edição ter sido produzida para comemorar os 25 anos de existência do TRT-MT, a trajetória da Justiça do Trabalho no estado é mais antiga e coleciona diversos personagens e histórias ao longo de 80 anos.

Quando o então presidente da República Getúlio Vargas criou a Justiça do Trabalho, instalou também as unidades de cada estado. Em Mato Grosso, elas existem desde a década de 40 e eram chamadas de Junta de Conciliação e Julgamento.

“A ideia é humanizar, mostrar a vida das pessoas que foram atendidas nesses quase 80 anos. Lemos muitos processos para produzir releases. Sentenças e acórdãos são produzidos por juízes e desembargadores todos os dias. Imaginávamos quantas boas histórias poderiam ser contadas”, contou Aline Cubas.

Os jornalistas precisaram vasculhar os arquivos do órgão, que guardam processos arquivados desde a década de 40.

“O português (das décadas passadas) era muito diferente, além dos processos muito extensos. Nossa intenção era tirar tudo que remetesse ao universo jurídico, para ser um livro gostoso de ler”, disse.

Os casos mais antigos, até a década de 70, precisaram ser selecionados e escritos do zero, pois, apenas em 2005, jornalistas passaram a fazer parte do quadro de funcionários do TRT-MT.

“De 2005 até agora, são histórias que a gente já tinha escrito para o site (institucional), só que precisamos reescrever em outro formato, porque no site escrevemos para dar a notícia. Já no livro, a linguagem é literária”, contou Aline.

As primeiras histórias, que correspondem aos primeiros processos, chamam a atenção por fazerem também o resgate dos primeiros anos de Mato Grosso e dos imigrantes que residiam no estado.

Um construtor húngaro, por exemplo, foi acionado na Justiça do Trabalho, em 1942 por operários que prestaram serviços a ele e não receberam.

“A gente achou bem interessante a questão dos imigrantes, que talvez tenham chegado ao Brasil por causa da Segunda Guerra. Existiam muitos estrangeiros em Cuiabá, como gregos, italianos e portugueses”, contou Sinara.

Foi assim…

A intenção, segundo Sinara, é que o leitor tenha a impressão de que esteja ouvindo um “causo”.

“Por mais que algumas coisas pareçam mentira, foi tudo tirado dos processos. Daí decidimos pelo nome 'Foi assim…', porque a história que está no livro é a que está no processo”, lembrou.

Durante a seleção das histórias, os jornalistas se preocuparam em encontrar aquelas que demonstrassem também a evolução e as mudanças da sociedade e da economia.

Nos primeiros processos, que datam a década de 40, são de trabalhadores buscando a Justiça para receber os cruzeiros, moeda da época, que os patrões estavam devendo até as evoluções tecnológicas.

Redes sociais denunciam

Os primeiros processos envolvendo tecnologia começaram com o uso de e-mails corporativos.

“Seja cometendo assédio moral com seu subordinado através de um e-mail encaminhado para todos os funcionários, gerando constrangimento ou via e-mail fotográfico”, contou.

Depois, começaram a surgir conflitos envolvendo as redes sociais. O livro narra a história de uma babá grávida que pediu uma folga e a patroa negou. Como estava com uma viagem marcada para o Rio de Janeiro, a mulher decidiu falsificar um atestado.

O atestado dizia que ela estava com sangramentos e muito debilitada. Porém, a mulher decidiu compartilhar fotos da viagem em suas redes sociais com as seguintes legendas: “#férias, #rj, #perguntaseeutôbem” e “#tôbemdemais”.

Os compartilhamentos chegaram aos ouvidos da patroa, que descobriu que o atestado era falso e demitiu a babá por justa causa. A mulher decidiu entrar na Justiça, porém, as fotos publicadas nas redes sociais foram utilizadas como prova durante o processo.

A babá acabou condenada a pagar multa à ex-patroa.

“Além de mostrar a mudança nas relações das pessoas, causadas pelas novas mídias. O livro mostrar também como a Justiça precisa se adequar a isso. Por exemplo, juízes usando Whatsapp e Facebook como provas”, avaliou Sinara.

O livro traz ainda uma sessão nomeada “Só sei que foi assim…”, que reúne 15 histórias escritas por Fabyola, com base em relatos de servidores da Justiça do Trabalho envolvidos nos processos.

“São relatos de juízes, secretários de audiência e oficiais de justiça. As histórias não foram baseadas em informações de processos, mas em relatos desses profissionais”, explicou.

Os jornalistas também incluíram imagens ao longo do livro, tanto desenhos do ilustrador Ric Milk, quanto trechos digitalizados dos processos mais antigos.

“Decidimos colocar imagens para tornar a leitura do livro ainda melhor, nada 'massudo'. Tradicionalmente, os órgãos públicos editam uma obra para marcar datas emblemáticas. Para os 25 anos, queríamos mostrar todas as vidas que já passaram por aqui”, contou Aline.

Trabalho escravo

Apesar da preocupação dos jornalistas para que os temas das histórias não se repetissem, Aline contou que foi quase impossível fugir da grande quantidade de processos relacionados ao trabalho escravo.

“Queríamos ter uma gama maior de assuntos, mas não tem como fugir. No livro tem até seis histórias que envolvem trabalho escravo. Os processos são marcantes e as histórias, muito fortes”, disse.

A obra traz, por exemplo, o caso de uma criança que foi achada no meio de uma fazenda de trabalhadores escravos. Era uma criança de cinco anos, filho de trabalhadores escravos, que dormia em uma lona suja no chão.

De acordo com Aline, a publicação reforça a importância da Justiça do Trabalho, tanto para os trabalhadores quanto para os empregadores.

“Lendo o livro, fico questionando: ‘e se não tivesse a Justiça do Trabalho? Esses trabalhadores iam pedir ajuda a quem?'”, disse.

*Sob a supervisão de Pollyana Araújo

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