Boa tarde, Quarta-Feira, 16 de Agosto de 2017
ARTE E CULTURA
Jovem lança livro de contos recheado de desejo e força literária
Corajosa, ela não nega quando a inquiro sobre os traços biográficos e a pessoalidade de algumas histórias. Bem ao contrário, diz que ali há sim muito do que viveu.
08/10/2016 - 15h34 - Fonte: RDNews

Ela chega com olhos gigantes, prontos para me engolir. Os cabelos longos, vermelhos, a convidar, simultaneamente, à fuga ou a uma súplica pra ser logo devorado.

Escritora Rafaella Elika autografa o livro "Me LiterAtura"

Para manter o controle da conversa, afinal, eu iria entrevistá-la e não o contrário, a cumprimento com um aperto de mão e um beijo no rosto e começamos a entrevista.

Ligo o gravador e me atenho à técnica, mal faço uma pergunta e lá vem a primeira fustigada: “a maioria em peso dos contos desse livro é sobre relacionamentos interpessoais. Românticos, mas não só, há aqueles entre pessoas desconhecidas, vários amores platônicos. E também há muita violência, além de relações desgastadas, que já não funcionam”. 

É o início da conversa com a escritora Rafaella Elika Borges, cujo primeiro livro, Me LiterAtura, será lançado no dia 22 de novembro, no Sesc Arsenal.

A jovem artista estreia no mundo literário formal após ser contemplada na categoria contos pelo edital de incentivo à cultura direcionado à literatura realizado pela Prefeitura de Cuiabá no ano passado.

Mas Rafaella só é estreante em volume individual, pois já publicava regularmente no caderno DC Ilustrado, do jornal Diário de Cuiabá, além de manter um blog e ter participado da coletânea de contos capitaneada pelo também escritor Wuldson Marcelo, Beatniks, Malditos e Marginais – Literatura na Cidade Verde, além da antologia O Mistério das Sombras, ambas pela editora carioca Multifoco.

Corajosa, ela não nega quando a inquiro sobre os traços biográficos e a pessoalidade de algumas histórias. Bem ao contrário, diz que ali há sim muito do que viveu.

No entanto, como a boa observadora que toda escritora deve (ou deveria) ser, tem seu filtro sobre as experiências de outros seres humanos. “Gosto de falar sobre as coisas que sentimos de verdade, mas não falamos para as outras pessoas, ainda que sintamos isso com relação a elas”, continua, chispando energia pra todos os lados em gestos rápidos, precisos.

"Gosto de falar
 sobre coisas
que sentimos, 
mas não falamos
 para as pessoas"

Nascida em Cuiabá, Rafaella começou a escrever pouco tempo depois de alfabetizada, aos oito anos. “Sempre gostei de tudo que fosse relacionado à arte, de cantar, de interpretar, de desenhar. Não demorou muito pra começar a escrever. Mas as primeiras histórias mesmo, que dá para chamar assim, comecei a criar aos 15 anos”, conta, sorrindo de maneira voraz.

Uma força bruta, de alicerce concreto, que se manifesta em uma paixão sôfrega como a descrita em textos como Três Ovos: “Doei farinha de trigo, atenção e carinho. Doei três ovos, lealdade, fidelidade e cumplicidade. Doei manteiga, tempo, disposição e afeto. Doei xícaras de leite e uma porção de beijos e abraços. Doei fermento e mais de semanas de noites maldormidas. Doei açúcar, tempo, coração e âmago. Doei tudo o que tinha e até peguei emprestado. Doei vontade, força, paciência e ombro. Doei amor verdadeiro, dias semanas e anos. Doei o que tinha e o que precisava aprender a ter. E só o que tenho agora é uma forma untada”, na página 55 de Me LiterAtura.

Fugidia, só depois de muita insistência a reportagem consegue arrancar dela influências literárias, chamadas pela artista de apenas “autores favoritos”.

E o bom gosto impera. “Cara, eu leio mesmo é Machado de Assis, Edgard Allan Poe (meu escritor preferido, aliás), Cruz e Sousa, Álvares de Azevedo, Augusto dos Anjos. Na verdade, minha inspiração não é só da literatura, pego muito da música, do cinema e das vivências, do que vejo do mundo”.

Nessa atmosfera criada por ela e escalavrada no volume de contos, o ar pode ser por vezes rarefeito, melancólico, talvez como as muitas obras audiovisuais citadas por ela.

Se há muito sexo, “em todos os contos, nenhum exclui isso”, há também o substrato de relações e vontades em conflito e o sofrimento subjacente de amores rasgados, às vezes não correspondidos ou simplesmente estraçalhados. Em alguns momentos não só de maneira ideal, mas literalmente, como no violentíssimo I’ll Be Watching You, uma mistura insana de erotismo, assassinato e a banda britânica The Police.

O mesmo ocorre quando o protagonista de Maçã Verde se dá conta do vazio de sua existência, ou no triste lamento pós-coito surreal (não se sabe se é analogia ou uma relação que realmente aconteceu) presente em Geladeira, paixões que não se realizam ou promessas de amores jamais levados a cabo.

"Não acredito que amanhã
vai ser pior ou melhor, só 
acredito que haverá um 
amanhã" - Rafaela Elika

Enfim, como a própria autora admite, Me LiterAtura é feito de camadas em sobreposição onde cada período traz um sabor inerente em si, mas nenhum deles é esgotável ou definível pura e simplesmente ao fim de cada história. É necessário sempre provar novamente o até então descrito, saborear ou repugnar-se com o que não foi digerido. Revisitar o que se pensava já conhecido.

E tudo isso tem muito a ver com a personalidade dela, de acordo com o que ela mesma conta, ao ser perguntada em como conciliar a vida literária, de mundos por vezes inóspitos, com o existir de fato e suas dores.

Você já aceitou esta vida como ela é, Rafaella, ou ainda acredita que amanhã vai ser melhor?  "Não acredito que amanhã vai ser pior ou melhor, só acredito que haverá um amanhã. E isso por vezes me basta. Claro que não sempre, pois quando estou melancólica a tristeza se manifesta como um balão que enche, tomando conta de todo o resto. Mas tento e procuro não deixar que isso perdure".

Não é pouco para alguém tão jovem. Na vida e na arte.

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