Boa tarde, Quarta-Feira, 16 de Agosto de 2017
TECNOLOGIA
'Nenhum algoritmo no mundo é 100% perfeito', diz brasileiro que lidera área de aparelhos do Google
Mario Queiroz, vice-presidente de produtos do Google, lidera a chegada da inteligência artificial a aparelhos como o alto-falante conectado Google Home e o smartphone Pixel.
24/04/2017 - 15h54 - Fonte: G1

Ele foi o responsável por mostrar ao mundo o primeiro aparelho do Google que as pessoas podiam pegar na mão. Eram as mãos do brasileiro Mario Queiroz, vice-presidente de produto do Google, que seguravam o Nexus One em 2010 quando o smartphone Android puro sangue foi lançado. De lá para cá, as mãos do paranaense estiveram por trás do desenvolvimento do Chromecast, que deu uma turbinada em muita TV por aí e se tornou o aparelho de streaming mais vendido do mundo. Agora, elas são as responsáveis por dar vida ao sistema de inteligência artificial do Google, que é a alma do smartphone Pixel e do alto-falante conectado Google Home.

Na entrevista exclusiva ao G1, Queiroz conta como o Google lida para se livrar de algumas saias justas produzidas pela disseminação de notícias falsas (o Google Home já foi flagrado dando notícias falsas como resposta a perguntas de usuários) e como a inteligência artificial é uma nova etapa na evolução da tecnologia.

G1: Antes de surgir a onda de lavadoras, geladeiras, TVs e celulares inteligentes, as pessoas estavam acostumadas a comprar aparelhos que executavam uma única tarefa. O que mudou no comportamento das pessoas para elas precisarem de algo, como o Google Home, que não faz algo palpável mas trabalha só para organizar a vida conectada?

Mario Queiroz: A cada geração de tecnologia, a gente percebe que as coisas te permitem fazer mais, e a sua vida se torna mais eficiente. Quando surgiram os smartphones, você tinha a web, você tinha o e-mail na sua mão, não tinha que ir a um computador. Agora, quando você está em casa, se você tem um desses assistentes num alto-falante, você está lavando a louça e não precisa parar, secar a mão, buscar o telefone, abrir o telefone e buscar uma música. Você pode simplesmente falar, 'eu quero escutar a música do Tom Jobim'. e ele faz isso. São coisas que tornam a vida mais fácil.

G1: O que está acontecendo? Por que deixou de ser interessante que as máquinas façam apenas aquilo para o que foram construídas? Por que elas agora também têm de pensar?

Mario Queiroz: A inteligência artificial está chegando a um ponto que começa a trazer um benefício incrível. Nosso objetivo é que nós percebamos que os computadores dão respostas melhores e tornem a vida mais fácil. Por exemplo: antes, no Google Photos, você podia pedir, 'fotos da minha filha'; hoje, você pode pedir, 'fotos da minha filha numa praia'; e amanhã você vai pedir, 'fotos da minha na praia em um toalha vermelha'. Cada vez os algoritmos vão ficando mais inteligentes para dar respostas melhores.

G1: O golpe do momento é o ransonware, em que eletrônicos conectados à internet são sequestrados e só liberados após um pagamento em dinheiro. Com o Google Home, o Google não abre mais a porta da casa das pessoas para cibercriminosos?

Mario Queiroz: Duas coisas muito importantes em qualquer aparelho que o Google desenvolve: a privacidade e a segurança do usuário. Dou a você o exemplo do navegador Chrome. Desde o primeiro dia do Chrome, uma das grandes vantagens é que ele é um navegador muito, muito seguro. As escolhas que fizemos no desenho do Google Home foram de incluir certas tecnologias de segurança que já vínhamos desenvolvendo há sete, oito anos no Chrome. O Google tem a vantagem de ter várias plataformas e muita tecnologia de segurança nessas plataformas. Nós podemos escolher qual é a melhor para aquele uso específico.

G1: Mal chegou ao mercado, o Google Home virou meme porque dois desses aparelhos ficaram conversando um com o outro e porque um desses dispositivos deu informações de uma notícia falsa da internet como resposta a uma pergunta. Como vocês estão procurando fugir dessas cascas de banana?

Mario Queiroz: Com os algoritmos da inteligência artificial, o objetivo é dar a melhor resposta possível, no maior número de vezes possível. Com a tecnologia que nós temos, em que você faz uma pergunta por voz ao telefone ou ao Google Home, nós buscamos automaticamente dentro de páginas da web. Fazemos a tradução do texto para voz e retornamos com a resposta. Fazemos isso milhares de vezes No final, é claro, nenhum algoritmo no mundo é 100% perfeito. Quando descobrimos problemas com algoritmo, mudamos o algoritmo não só para resolver o problema específico, mas para resolver o problema de uma forma mais ampla.

G1: O Brasil tem o único centro de desenvolvimento do Google na América Latina, que tem na sua gênese uma empresa brasileira; estamos entre os dez maiores mercados de software do mundo, além de ter brasileiros em postos chave de gigantes da tecnologia, como, por exemplo, você, no Google, o Hugo Barra, no Facebook. Por que não surge no país uma empresa de tecnologia voltada ao usuário final como Apple, Facebook, Google?

Mario Queiroz: Eu acho que os principais ingredientes para surgir uma empresa de grande porte são: 1) pessoas inteligentes e inovadoras, e acho que isso a gente tem no Brasil; temos pessoas muito bem treinadas aqui; 2) a outra é o espírito de inovação e o espírito de otimismo, e acho que isso tem muito aqui no Brasil; 3) a outra coisa é que uma empresa ajuda a outra quando elas estão juntas, elas competem, fazem parceria. Uma coisa que existe no Vale do Silício, por exemplo, é esse ecossistema de companhias de tecnologia e de empreendedores, em que as pessoas se conhecem e se encontram, trocam ideias. Isso é uma coisa interessante que poderia se pensar como poderia se criar um ecossistema desse tipo no Brasil.

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